Autor: Vinícius Juliatto
Prezados, Salve Maria.
No último dia 15 de novembro, completou-se 136 anos do golpe militar conduzido pelo Marechal Deodoro da Fonseca e pelos oficiais influenciados por ideologias e ambições alheias à tradição política brasileira, golpe que depôs a Monarquia Constitucional e implantou uma República improvisada, não plebiscitada e sem raízes no sentimento nacional. Tal data, longe de constituir objeto de celebração, convida à reflexão e ao lamento. Para aqueles que prezam pela continuidade histórica, pela legítima ordem imperial e pela conformação do Brasil ao Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo, trata-se de um marco doloroso: o momento em que o trono — símbolo da unidade do povo brasileiro — foi arrancado do altar da pátria.
É particularmente comovente que o último Imperador, Dom Pedro II, homem de virtude paternal, sabedoria, fé e abnegação, não tenha recorrido aos meios constitucionais que possuía para conter o ímpeto revolucionário. Muitos intérpretes — ora críticos, ora nostálgicos — interrogam por que razão o monarca não ordenou aos comandantes militares fiéis que dispersassem os conspiradores e restaurassem a ordem. Surge, então, a pergunta essencial: teria esse acontecimento terrível sido, de certo modo, anunciado na própria economia misteriosa da história? Teria a Divina Providência oferecido ao Brasil um prelúdio, uma advertência, um ensino pedagógico sobre as consequências
de um país sem Imperador?
A doutrina católica fornece as bases para essa interpretação. Jacques-Bénigne Bossuet, doutor da realeza cristã e mestre da teologia da história, ensina: “É Deus quem conduz, por vias ocultas, mas sempre justas, os destinos dos reinos; a história é o teatro onde se manifesta Seu julgamento” (Bossuet, Discours sur l’Histoire Universelle, Parte I, cap. II). Assim, a história não é caos nem acaso, mas palco de uma pedagogia divina, na qual Deus admoesta, corrige, orienta e instrui os povos, inclusive por meio de castigos suscetíveis de fazê-los reconhecer seus desvios.
À luz dessa compreensão providencial, o exame atento da história brasileira revela que antes mesmo da proclamação da República já se haviam manifestado sinais evidentes de que um trono vazio conduziria à desordem, à fragmentação e ao sofrimento institucional. O Período Regencial (1831–1840), instaurado após a abdicação de Dom Pedro I, representa precisamente tal advertência histórica. Ali se viram, de forma contundente, os efeitos psicológicos, culturais, políticos e administrativos de um Brasil privado da figura unificadora do soberano.
A psicologia social brasileira — marcada pela diversidade regional, pela heterogeneidade cultural e pela construção recente da identidade nacional — ressentiu-se profundamente da ausência do Imperador. Como observa Oliveira Vianna, “o Brasil não nasceu por si mesmo: foi feito; e foi feito de cima para baixo” (Vianna, Instituições Políticas Brasileiras, 1933). A figura do monarca, símbolo vivo de unidade, exercia não apenas autoridade política, mas função psíquica nacional: era o pai, o árbitro, o ponto de convergência.
No âmbito político, o Período Regencial revelou aquilo que Bernardo Pereira de Vasconcelos percebeu com lucidez admirável: “O Brasil não pode subsistir sem a Monarquia; a República seria sua dissolução” (Vasconcelos, Anais do Parlamento Brasileiro, 1837). Nesse intervalo, sucederam-se revoltas — Cabanagem, Sabinada, Balaiada, Farroupilha — todas demonstrando que, na ausência do Imperador, as províncias passavam a conceber-se como pátrias autônomas. Tal diagnóstico foi reiterado por Honório Hermeto Carneiro Leão, futuro Marquês de Paraná: “Sem o Imperador, teremos tantas pátrias quantas províncias” (Paraná, Discursos Parlamentares, 1840).
Mesmo pensadores posteriores, não necessariamente monarquistas, reconheceram retrospectivamente a advertência providencial. Rui Barbosa — que em 1889 aderiu ao movimento republicano — admitiu, anos depois, o equívoco nacional: “A queda da Monarquia foi uma imprudência irrefletida, e as consequências têm sido uma lição severa” (Barbosa, Cartas de Inglaterra, 1896). Também Joaquim Nabuco, convertido à reflexão madura sobre a unidade nacional, afirmou: “A Monarquia fez o Brasil; a República herdou-o feito” (Nabuco, Minha Formação, 1900).
No plano teológico-político, a ausência do Imperador significou também a suspensão do Poder Moderador — instituição única, concebida para impedir o conflito entre as esferas do governo, garantir o equilíbrio federativo e proteger a nação contra facções. Como assinala o Visconde do Uruguai: “O Poder Moderador é a salvaguarda que impede que a máquina política se despedace” (Uruguai, Ensaio sobre o Direito Administrativo, 1862). Quando tal eixo desapareceu, o país experimentou precisamente aquilo que a teoria constitucional buscava evitar: faccionalismo, desintegração e violência.
Assim, pela leitura providencial da história, compreende-se que o Período Regencial foi o aviso divino — um espelho prefigurativo — do que seria o Brasil republicano: um país órfão, instável, sujeito às oscilações de grupos, interesses e ideologias desconectadas de sua tradição. A Providência permitiu que o Brasil experimentasse antecipadamente a ausência do Imperador para que reconhecesse a necessidade dessa autoridade paterna e moderadora.
No entanto, o Brasil não aprendeu plenamente a lição. O golpe de 1889 repetiu, em escala ampliada, o erro regencial: retirar o monarca e entregar a nação a um regime político sem raízes, conduzido por elites militares inspiradas por modelos estrangeiros. Como afirma Dom Pedro de Alcântara, Príncipe do Grão-Pará, em carta posterior ao exílio: “A República não nasceu do povo, mas da caserna; e um regime que nasce de quartéis não pode produzir liberdade” (Pedro de Alcântara, Cartas do Exílio, 1916).
A consequência histórica dessa ruptura confirma a leitura providencial: instabilidade governamental, golpes sucessivos, coronelismo, centralização autoritária, fraudes eleitorais, perseguições religiosas, destruição de símbolos nacionais, laicismo de Estado e um século de confusão institucional. A Providência havia ensinado; o Brasil não ouviu; e então experimentou em pleno — e longamente — as consequências.
A leitura providencial da história torna-se ainda mais clara quando se considera o precedente francês. Em 1689, Nosso Senhor Jesus Cristo, por meio das revelações feitas a Santa Margarida Maria Alacoque, dirigiu-Se ao Rei da França, Luís XIV, pedindo explicitamente a consagração do reino ao Seu Sagrado Coração, a inscrição desse símbolo real nas bandeiras e estandartes, e a construção de um templo nacional em reparação. Tal pedido não foi atendido, nem por Luís XIV, nem por Luís XV, nem por Luís XVI. Exatamente cem anos depois, em 1789, eclodiu a Revolução Francesa — destruição da monarquia, perseguição religiosa, profanação dos altares, culto da razão, martírio de sacerdotes e religiosas, e a instauração de um regime anticristão. Como observou o Cardeal Pie, cuja doutrina influenciou profundamente o magistério de São Pio X: “Quando Jesus Cristo não reina pelas leis e pelas instituições, reina pela desordem e pelo castigo” (Pie, Œuvres Episcopales, 1874). Assim, a história da França mostra que a recusa do rei em cumprir a vontade de Cristo não permaneceu sem consequências na ordem temporal. A Providência educa as nações — e quando estas rejeitam a graça, colhem o fruto amargo da revolução.
Essa lógica histórica e teológica é essencial para compreender o paralelo com o Brasil. Se na França houve uma omissão régia diante de um mandato sobrenatural, no Brasil houve uma omissão nacional diante de um mandato histórico. Dom Pedro II, embora católico e virtuoso, foi formado sob forte influência do liberalismo ilustrado e, por delicadeza de consciência, recusou-se a usar a força para defender a Monarquia — mesmo quando o dever de estado assim o exigia. Como ensinaria Leão XIII: “A autoridade é delegada por Deus, e o governante faltoso responde não apenas pelos seus atos, mas pelos males que não impediu” (Immortale Dei, 1885).
Assim como a França recebeu um aviso ignorado — e em seguida sofreu a Revolução — o Brasil recebeu o aviso do Período Regencial, e, não o reconhecendo, padeceu o golpe republicano de 1889 e suas consequências: laicismo, dissolução simbólica, perseguição anticlerical, instabilidade institucional e a lenta erosão da consciência nacional. A Providência falou e nós não a escutamos. Agora colhemos o castigo. O que é necessário para finalmente escutá-La?
Nos cum prole pia, benedicat Virgo Maria.
Vinícius Juliatto, Congregado Mariano.